Nem três, nem reis, nem magos

O famoso trio de personagens natalinos é mais baseado na tradição do que na Bíblia


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“E, tendo nascido Jesus em Belém de Judeia, no tempo do rei Herodes, eis que uns magos vieram do Oriente a Jerusalém, dizendo: onde está aquele que é nascido Rei dos judeus? Porque vimos a Sua estrela no Oriente e viemos a adorá-Lo.” Mateus 2.1,2

Segundo a tradição, três reis magos do Oriente dirigiram-se a Belém, guiados por uma estrela, para ver o Senhor Jesus recém-nascido na manjedoura. Mas, como mostrado no trecho bíblico acima, a Palavra Sagrada não cita se eram três, nem se eram reis. Além disso, a palavra “mago” antigamente não significava exatamente um feiticeiro, como hoje. O termo era utilizado para sábios, conselheiros ou cientistas, como os astrônomos.

Guiar-se pelas estrelas em caminhos de terra e mar era muito comum, assim como medir períodos pelos astros – como o calendário judaico, guiado pelas fases da lua. A ciência da astronomia (não confundir com astrologia) é bem mais antiga do que sugerem os modernos observatórios e telescópios de hoje.

O erro do presépio

“E, vendo eles a estrela, regozijaram-se muito com grande alegria. E, entrando na casa, acharam o menino com Maria, Sua mãe, e, prostrando-se, O adoraram; e abrindo os seus tesouros, ofertaram-Lhe dádivas: ouro, incenso e mirra.” Mateus 2.10,11

O autor do Evangelho se refere a uma casa, sem dar maiores detalhes. Nada de estábulo, nada de manjedoura, ainda que pudesse ser uma casa humilde. Nem mesmo a figura de José, marido de Maria, aparece nesse trecho. Nada garante também que os visitantes chegaram logo que o Senhor Jesus nasceu. Nem que havia pastores na cena, como a tradição também prega. A Bíblia diz somente que os magos do Oriente, guiando-se por uma estrela, encontraram o Messias ainda bebê, para adorá-Lo.

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A parte que se refere aos pastores que ouviram dos anjos sobre o nascimento do Rei dos reis e foram encontrá-lo deitado em uma manjedoura (um cocho para alimentar o gado), na companhia dos pais, em um estábulo de uma pousada (pois não haviam achado vagas de hospedagem naquela noite por ser época do censo), está nos dois livros adiante, no Evangelho de Lucas, capítulo 2. Ao que tudo indica, os pastores chegaram logo que Jesus nasceu e os magos alguns dias depois, quando o casal e seu bebê já haviam achado uma casa para a devida hospedagem. Por isso, a tradicional figura do presépio, com os magos adorando a Jesus recém-nascido no estábulo não retrata a realidade.

Nobres, mas não reis

Ao mencionar o Oriente, a Bíblia se refere à Mesopotâmia, onde ficava a Babilônia e onde, na época do Senhor Jesus vivo na Terra, dominava o Império Persa. Voltando à palavra “mago”, o termo designava os cientistas, sobretudo os astrônomos, que eram alçados a uma classe social bastante elevada, conviviam com a nobreza e frequentavam os palácios. Isso também justificaria as riquezas que carregavam e com que presentearam a família visitada – um costume comum daqueles tempos, geralmente com objetos de arte ou outro produto típico do reino do visitante. Séculos antes, os magos babilônicos foram chefiados pelo profeta Daniel, cativo na cidade deles, mas cuja sabedoria o fazia precioso aos olhos do rei.

Como os magos gozavam de privilégios na corte, ficava mais fácil entender o motivo de muitos acharem que eles eram reis. Provavelmente, as suas roupas e enfeites luxuosos chamavam atenção.

Os presentes

Em Mateus 2 também não há menção quanto a serem três os viajantes. Tradicionalmente, dizem que eram três pelo número dos presentes citados: ouro, incenso e mirra. O ouro simboliza a riqueza, a importância de um rei, tal como o Senhor Jesus era o Rei nas profecias. O incenso, nos templos, simboliza a oração que sobe a Deus, como a fumaça perfumada se ergue aos céus. A mirra é uma resina usada para fins antissépticos (e para embalsamamentos, simbolizando a luta contra a morte), algo de muito valor na época, comercializada a partir do Oriente.

A nobreza viajava em caravanas, com seguranças armados e até familiares. O deserto era um lugar perigosíssimo, cheio de assassinos e assaltantes. Nada justificava, portanto, três nobres portando objetos caros, com ricas roupas chamativas, viajando sozinhos.

Origem dos “perfis”

Voltando à tradição, ficou estabelecido popularmente que os magos eram reis, dois brancos e um negro, e os seus nomes eram Gaspar, Melchior e Baltazar. A forma como os Três Reis Magos são conhecidos vem dos textos do monge anglo-saxão Beda, um historiador, que chegou a dar detalhes da aparência dos visitantes, a quantidade e até os nomes, tirados dentre os usados com mais frequência pelos povos mesopotâmicos. A aparência deles remetia às raças mais comuns do mundo então conhecido, como se representassem todos os povos da Terra reconhecendo o Senhor Jesus como o seu rei. Só que isso foi idealizado por Beda mais de 800 anos depois de Cristo. Na Idade Média, os magos começaram a ser adorados como santos, sem que nada mais se soubesse da sua existência. Novamente, a Bíblia não confirma nada disso.

Perseguição

Herodes, com quem os magos teriam conversado quando procuravam Jesus, pediu a eles que depois voltassem para dizer onde o novo Rei estava, para que também fosse adorá-Lo. Contudo, na volta os nobres orientais foram avisados Divinamente em sonhos para que retornassem por outro caminho e não dissessem a Herodes a localização do bebê. Depois disso, José também foi advertido em sonho sobre a verdadeira intenção do governante e por isso fugiu com Maria e a criança para o Egito.

É sabido que Herodes, percebendo que os magos não voltaram a falar com ele, ordenou que todos os primogênitos de até 2 anos de idade fossem mortos, para que o seu Governo não fosse ameaçado por aquele que chegaria para reinar sobre os homens, conforme as antigas profecias. Após a morte de Herodes, José, Maria e Jesus puderam voltar para casa. Tudo isso é contado em Mateus 2.12-15.

Ficção adaptada

A tradicional história dos Três Reis Magos foi apenas uma tentativa de “incrementar” o texto bíblico, que é econômico em detalhes. Mas a riqueza dos escritos de Mateus está exatamente na simplicidade, em mostrar o Senhor Jesus como o verdadeiro Messias. Mesmo sendo uma bela história sobre todos os reinos da Terra, representados por três monarcas curvando-se a um menino de uma família humilde, enviado pelo próprio Deus, devemos identificar a verdade e desconsiderar o que é simples acréscimo.

Claro que a visita dos magos também é importante, pois mostra o reconhecimento de Jesus como o verdadeiro Rei dos reis, assim como a divulgação da Boa Nova pelos visitantes, quando voltassem às suas terras. Porém, os detalhes acrescentados devem ser encarados apenas como uma lenda, fora do texto da Bíblia. Só é verdade o que está escrito nela.

 

Universal.org / Imagem: Reprodução

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